Causa Mortis

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Desde que te conheci, não consigo mais dormir. Preciso de três pílulas e dois copos do whisky mais barato do mercadinho da esquina. É assim que eu apago todas as noites, esperando que não haja uma próxima. Mas sempre há. Ah, sempre há uma próxima para trazer a lembrança da sua voz, do seu rosto e do seu andar bêbado às 4h da manhã. Do seu “foda-se” bem alto quando eu perguntava o que iam pensar de nós naquele estado, discutindo, falando mais palavrões do que argumentos. Entre um grito seu e um palavrão meu eu apago todas as noites como um paciente anestesiado. A diferença é que o paciente não sente as dores da cirurgia. Já eu sinto as dores de cada sonho embriagado. Levanto com a dor de cabeça e o enjoo de sempre e o mesmo desespero no peito. Como se eu precisasse vomitar os comprimidos, o whisky e as lembranças. Como se eu pudesse dar descarga em todos eles de uma só vez.

Desde que te conheci não consigo mais ficar acordado. Sóbrio. Preciso enfiar umas três linhas nariz a dentro. E nelas sinto seu cheiro enquanto cai uma gota de sangue na mesa. Como naquele dia em que você me deu um tapa, virou as costas e nunca mais voltou. O sangue escorre até hoje. O garçom daquele bar me prescreveu duas doses de whisky antes de dormir por uma semana — disse que curaria a dor da decepção. Prolonguei para alguns meses a prescrição. Os comprimidos e o pó foram por minha conta mesmo. Dizem que automedicação nunca faz bem a ninguém. Mas assim me mantenho vivo dia após dia, respirando sem ajuda de aparelhos. Aumento a dose de cada substância aos poucos para diminuir a dor cada vez mais intensa e insuportável. Esperando o dia em que eu durma e não acorde mais. Esperando  que não haja uma próxima noite e que o único que perceba minha ausência seja o balconista do velho mercado. “Intoxicação” vão dizer. Sem saber que você foi a substância mais tóxica que já habitou meu corpo.

 

O Último Gole

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A juventude escorre por meus dedos
Dia após dia a vejo se esvair
Com o tempo aumentam-se os medos
Sinto mais cerca minha hora de partir

Com a morte eu flerto, então
Imagino meu último semblante
O óbito permeia minha imaginação
Torna-se um sonho delirante

Sinto-me pronto para a partida
Bebo minha última taça
Brindando o fim de minha vida
Repleta de amargura e desgraça

Meu último gole dou, enfim
A embriaguez penetra minhas veias
O sangue para dentro de mim
Da morte estou em suas teias

Meu Fim

Sem título

Quando a hora chegar
O céu escurecer
A lua brilhar
E eu padecer

Quando a garrafa cair
O whisky escorrer
Eu me esvair
E nada mais ver

Quando a chama apagar
As cinzas alastrarem
O sangue espalhar
E vocês gritarem

Já não ouvirei nada
Seus perdões,
Suas mentiras
Minh’alma aprisionada
Meus refrões,
Minhas iras

Mais nada

Caleidoscópio

Sem título

Através dele, meu olho direito
Vê tanta cor refletida
Sinto, então, algo em meu peito
Por este olho, passa minha vida

 Da infância me recordo
Como havia  luz e brilho
Agora da adolescência estou a bordo
À vida adulta foi um tortuoso trilho

 Hoje, em meio a minha escuridão
Tanto brilho quase me cega
As memórias saem do cilindro em vão
E por elas, minha alma trafega

 Caleidoscópio empoeirado
Tocaste em minha ferida
Vi, através de ti, amargurado
A psicodelia da vida

Cinzas ou Pó

morcego

Fenix queres que eu seja
Para que das cinzas eu renasça
Mas sou como o raio que troveja
E traz luz uma vez só
Por maior a escuridão que faça

Se um animal tenho de escolher
Um morcego torno-me, então
Que nas trevas tudo pode ver
E faz do ostracismo sua renovação

 Pendurado em galhos se sustenta
Encara a morte como uma só
Falsas Ilusões não alimenta
E sabe que todos ao fim da vida
Tornamo-nos pó

Vinho ou Sangue

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Admiro o Sol nascer

Com uma taça de vinho

Porém, luz não posso ver

Tu escureceste meu caminho

 

Essa noite misturou-se

Vinho com sangue teu

E nosso amor transformou-se

Em teu corpo que padeceu

 

Agora o Sol preenche a sala

Enquanto esvazia minh’ alma

Minha dor, a luz, cala

No cálice, o vinho me acalma

 

Me acalmou, me entorpeceu

Até que eu não sofra

Por não ser mais

(t)eu

 

Cinzas de Nós

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Um cigarro queimando
Fumaça dançando no ar
Lembro de ti me amando
Nas cinzas, nosso amor a queimar

Acendi tua imensa chama
Nossas almas se fundiram
Senti tanto que me ama
Que as cinzas, então, caíram

Espalhadas pelo chão
Vi o cessar do fogo
Peguei em tua mão
E anunciei o fim do jogo

Perdi muitas tragadas
Não há mais fumaça no ar
Minhas mãos estão queimadas
E nosso amor a revogar

Apago tuas memórias
No cinzeiro de minha mente
Viram cinzas nossa história
Em mim
Não estás mais presente